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UMA PRESA ESQUIVA

A cultura popular dos incios da Europa moderna  esquiva. Ela escapa do historiador porque ele  um homem moderno letrado e auto-consciente, que pode achar difcil 
entender pessoas diferentes dele prprio, e tambm porque os indcios a respeito de suas atitudes e valores, esperanas e temores so muito fragmentrios. No perodo, 
grande parte da cultura popular era oral, e "as palavras passam". Grande parte dela assumia a forma de festas, que eram igualmente transitrias. Queremos saber sobre 
apresentaes artsticas, mas o que sobrevive so textos; queremos ver essas apresentaes atravs dos olhos dos artesos e camponeses, mas somos obrigados a enxerg-las 
com os olhos de forasteiros letrados.1 No admira que alguns historiadores tenham julgado impossvel descobrir como era a cultura popular naquele perodo.  importante 
termos conscincia das dificuldades, e assim, na seo que se segue, me farei de advogado do diabo e defenderei a causa do ctico. Ao mesmo tempo, creio de fato 
que podemos descobrir muita coisa sobre a cultura popular do perodo atravs de meios mais ou menos indiretos, e na segunda seo tentarei sugerir essas possveis 
abordagens indiretas.

OS MEDIADORES
Os historiadores esto acostumados a tratar com textos, com "os documentos", sejam manuscritos ou impressos. No entanto, uma coisa  estudar uma sociedade como a 
Gr-Bretanha no incio do sculo XX, onde a maioria das pessoas era letrada, atravs de textos; outra coisa totalmente diferente  estudar os artesos e camponeses 
dos incios da Europa moderna, quando a maioria no sabia ler ou escrever. Suas pg.91 atitudes e valores se expressavam em artefatos e apresentaes, mas esses 
artefatos e apresentaes s eram documentados quando as classes altas letradas se interessavam por eles. Os nicos textos sobreviventes de canes e estrias populares 
russas do sculo XVII foram registrados por dois visitantes ingleses, Richard James e Samuel Collins; foi preciso que um estrangeiro julgasse essas tradies orais 
dignas de transcrio. Muito do que sabemos sobre os grandes carnavais em Roma e Veneza, entre 1500 e 1800, provm dos relatos feitos por visitantes estrangeiros, 
como Montaigne, Evelyn e Goethe, que esto sujeitos a perder todo tipo de aluses locais ou tpicas e podem entender mal o significado dos festejos para os participantes.
Outras atividades populares esto documentadas simplesmente porque as autoridades da Igreja ou do Estado estavam tentando elimin-las. A maior parte do que sabemos 
sobre as rebelies, heresias e feitiarias do perodo foi registrada porque os rebeldes, hereges e bruxas foram levados a julgamento e interrogados. Se os historiadores 
sabem alguma coisa sobre a cultura dos mouros de Granada do sculo XVI,  principalmente por causa dos relatos anotados nos trabalhos do snodo de Guadix em 1554, 
o qual estava tentando erradicar essa cultura. Sabemos do "jogo de vero do senhor" na aldeia de South Kyme, em Lincolnshire em 1601, s porque o jogo satirizava 
o conde de Lincoln, que apresentou uma nota de protesto na Star Chamber. Em todos esses casos, a situao em que a atividade foi documentada pode distorcer o registro, 
visto que os inquisidores no estavam interessados em determinar o que significavam as rebelies, heresias ou stiras para os acusados.2
Uma outra categoria de documentos, que parece menos sujeita a distores,  a das "obras" de atores, poetas e pregadores populares, que podiam ser publicadas durante 
suas vidas ou logo depois de suas mortes.  este o caso dos Jests ("Chistes"), de Richard Tarleton, de As bravatas do capito Terror do Vale dos Infernos, coletnea 
de discursos de "soldado jactancioso", publicada por Francesco Andreini, que se especializou nesse papel, das canes de Cristofano dell'Altissimo e Sebastyn Tindi, 
dos sermes de Olivier Maillard e Gabriele Barletta.3
Esses textos so fontes indispensveis para o historiador da cultura popular, mas no so exatamente o que ele quer. Um texto no pode registrar convenientemente 
uma apresentao, seja o de um palhao ou de um pregador. Falta o tom da voz, faltam as expresses faciais, os gestos, a acrobacia. Thomas Fuller indicou o ponto 
crucial em sua biografia de Tarleton: "Grande parte da sua graa estava na sua prpria aparncia e aes ... na verdade, as mesmssimas palavras, pg.92 ditas por 
um outro, dificilmente fariam uma pessoa alegre sorrir; pronunciadas por ele, obrigariam uma criatura triste a gargalhar". O historiador tem a tarefa frustrante 
de escrever sobre Tarleton sem poder v-lo.4
Existe ainda um outro problema. No podemos nos permitir supor que esses textos impressos so registros fiis das apresentaes, mesmo na limitada medida em que 
os textos podem s-lo. O texto podia se destinar a um pblico diferente daquele que assistia s apresentaes; na verdade, devia se dirigir a um pblico mais educado, 
mais abastado, simplesmente para vender. Sabemos muito pouco sobre o processo de surgimento desses textos impressos. Os palhaos, pregadores ou poetas eram consultados? 
Andreini deu seu prprio nome a Capito Terror, mas os poemas de Altssimo foram editados para a publicao, e no podemos saber com certeza o que significava "editar". 
Um dos seus poemas, Derrota de Ravena, sobrevive em manuscrito, mas este se interrompe com a nota: "Aqui faltam algumas estrofes, as ltimas, porque o poeta estava 
to inspirado na concluso que nem a pena nem a memria do homem que estava anotando conseguiam acompanh-lo".5 Em outros casos, no sabemos o que aconteceu. O texto 
seria transcrito com fidelidade durante a apresentao? Sofria censura? Acrescentava-se alguma coisa? Os acrscimos e eliminaes seriam feitos com ou sem o consentimento 
do artista?
No caso dos sermes, h mais um complicador. Maillard pregava em francs e Barletta em italiano, mas seus sermes foram publicados em latim, deixando claro que o 
pblico visado era muito diferente dos ouvintes originais. O interesse da publicao no era registrar a apresentao; era pr os temas e exempla  disposio de 
outros pregadores por toda a Europa. Assim, uma famosa coletnea de sermes era conhecida como Dormi secure, porque assegurava aos pregadores um bom sono nas noites 
de sbado. O latim dessas coletneas de sermes no  muito literrio  pode ser "macarrnico" ou misturado com o vernculo , mas constitui mais um obstculo para 
a recuperao da apresentao, no s de uma apresentao especfica, mas, e que importa ainda mais para o nosso ponto de vista, da apresentao tpica do perodo. 
Os sermes impressos podem estar cheios de referncias eruditas. O texto de Barletta se refere a Tito Lvio, Eusbio e so Bede, o Venerando  ser que no sermo 
propriamente dito ele se referiu a eles?6
Por trs desse problema da relao entre texto e apresentao artstica est um outro ainda mais srio. Os textos raramente so produzidos diretamente pelos artesos 
e camponeses cujo comportamento pg.93 tentamos reconstruir; no nos aproximamos deles diretamente, mas atravs de mediadores. O historiador da cultura popular nos 
incios da Europa moderna enfrenta os mesmos tipos de problemas que tem o historiador da frica negra tradicional. Os documentos da histria africana foram escritos 
por pessoas de fora, viajantes, missionrios ou militares, gente que com freqncia desconhecia a lngua local, ignorava tambm a cultura local e que, s vezes, 
estava tentando elimin-la. Estudar a histria do comportamento dos iletrados  necessariamente enxerg-la com dois pares de olhos estranhos a elas: os nossos e 
os dos autores dos documentos que servem de mediao entre ns e as pessoas comuns que estamos tentando alcanar. Pode ser til distinguir seis tipos de mediao.
(I) O problema se mostra mais claramente no caso dos grandes escritores que tm sido estudados como fontes da cultura popular, como Villon e Rabelais. Esses dois 
autores naturalmente tinham familiaridade com a pequena tradio do seu tempo, a cultura da taverna e da praa de mercado; mas tambm tinham familiaridade com a 
grande tradio, e basearam-se livremente nela. Eles no eram exemplos no sofisticados da cultura popular, mas sim mediadores sofisticados entre as duas tradies.
O equvoco  particularmente fcil de ocorrer no caso de Villon, que levou uma vida de vagabundo e criminoso. Ele foi preso em 1461 e novamente em 1462, tendo sido 
condenado  morte depois de uma rixa, embora no se saiba se a sentena foi executada ou no. Ele escreveu alguns poemas em argot, provavelmente no jargo dos Coquillards, 
um grupo de criminosos interrogados em Dijon em 1445. Numa ballade, ele se refere  polcia da Paris medieval, os sergents, chamando-os de "anjos", eufemismo que 
pode ter sido sugerido por gravuras do arcanjo Miguel pesando as almas. Ele empregou formas da cultura popular, como o falso testamento e o provrbio  de fato escreveu 
uma ballade feita de provrbios:

Tant grate chivre que mal gist,
Tant va l pot  l'eaue qu'il brise ...
Tant crie l'on Nol qu 'il vient.

(Tanto esgaravata a cabra que acaba mal / Tanto vai o pote  gua
que se quebra ... / Tanto se grita por Noel que ele vem.)

No entanto,  de se lembrar que Villon era um universitrio, com grau de mestre em Paris. Seus poemas no se referem apenas a criminosos e tavernas, mas tambm a 
autores clssicos, como Aristteles e Vegcio, pg.94 e a filsofos escolsticos, como Jean Buridan. Suas ballades fazem parte de uma tradio literria, e se os 
elementos proverbiais de uma delas so populares, o poema como um todo no o .7
O caso de Rabelais  parecido. Rabelais no inventou Gargntua, um gigante que j existia nos folhetos e tradies orais franceses. O estilo de Rabelais tambm deve 
muito  cultura popular, como destacou o talentoso crtico russo Mikhail Bakhtin, chamando a ateno para "a linguagem da praa de mercado em Rabelais" e o uso que 
faz das "formas de festas populares", principalmente as carnavalescas. Bakhtin estava absolutamente correto, mas no se deve esquecer que Rabelais tambm era um 
erudito, formado em teologia e medicina, bom conhecedor dos clssicos e bem informado das leis. O uso que faz da cultura popular era deliberado, e no espontneo; 
Rabelais tinha conscincia (como um crtico francs sugeriu recentemente) das "potencialidades subversivas" do folheto popular, que imitou a fim de minar a hierarquia 
tradicional dos gnero literrios. Os leitores do sculo XX, que esto alheios s duas tradies, a erudita e a popular, da Frana do sculo XVI, facilmente podem 
no saber quando Rabelais est trabalhando dentro de uma tradio e quando est misturando as duas.8
O equvoco tambm  igualmente fcil no caso de escritores menores da grande tradio, que beberam na cultura popular com objetivos prprios. Carlos Garca escreveu 
um livro que pretende registrar uma discusso na priso entre o autor e um famoso ladro, o qual descreve as especialidades de sua profisso, os estatutos e as leis 
que a governam. Ele no nos oferece um acesso direto ao mundo do pcaro,  semelhana das obras evidentemente mais literrias de Cervantes, Alemn ou Quevedo. O 
Pentamarone, coletnea de estrias em dialeto napolitano publicada no sculo XVII, tem sido estudado desde a poca dos Grimm como fonte para o folclore italiano. 
No entanto, ele foi escrito por um nobre, Gianbattista Basile, poeta barroco no estilo de Marino, que sentiu-se atrado pelas estrias por serem fantsticas e bizarras. 
Pode no ter alterado os enredos, mas a forma como ele conta as estrias  tpica da cultura erudita de sua poca  frases longas, profuso de sinnimos, "imagens" 
extraordinrias.9
(II) Os sermes dos frades, em particular dos franciscanos, esto entre as fontes mais importantes para a cultura popular da Europa catlica. Os frades no raro 
eram filhos de artesos e camponeses; Abraham a Sancta Clara, o grande pregador alemo do final do sculo XVII, era filho de um servo estalajadeiro. O modo de vida 
simples dos frades mantinha-os prximos do povo. Suas simpatias voltavam-se freqentemente pg.95  para Lzaro contra o rico, para os fracos contra os poderosos. 
Muitas vezes viam-se em apuros por denunciarem padres e leigos importantes, e ato por incitarem rebelies, como o frade dominicano John Pickering durante a peregrinao 
da Graa.
Os frades eram pregadores populares, no sentido em que apelavam deliberadamente para os incultos, e muitas vezes atraam grandes pblicos. Savonarola, certa feita, 
pregou para dezenas de milhares de ouvintes em Florena. Os frades constantemente pregavam ao ar livre, e as pessoas subiam nas rvores ou se sentavam no alto dos 
telhados para ouvi-los. Levou 64 dias para serem consertados os telhados, depois de uma visita de Olivier Maillard a Orlans.10 Os frades baseavam-se na cultura 
popular do seu tempo. Pregavam em estilo coloquial, usando muitos trocadilhos, rimas e aliteraes, gritando e gesticulando, recorrendo a contos populares para ilustrar 
suas mensagens e compondo canes para serem cantadas pelas suas congregaes. No surpreende que os folcloristas tenham se baseado em sermes para estudar os contos 
populares desse perodo.11
Eles esto certos nisso, mas  preciso cuidado. Os frades eram anfbios ou biculturais, homens da universidade e homens da praa de mercado. Muitas vezes tinham 
formao em filosofia escolstica e teologia, e estavam interessados em transmitir em seus sermes pelo menos algum elemento da grande tradio. Savonarola, por 
exemplo, era filho de um mdico e tinha estudado teologia na Universidade de Ferrara. Num sermo, ele explicou o universo (segundo o sistema ptolomaico) aos ouvintes, 
comparando-o a uma cebola que tem a Terra no centro, cada camada da cebola correspondendo a uma das esferas cristalinas em que se moviam os planetas. A imagem  
caseira, mas no devemos supor que essa imagem do mundo fizesse parte da cultura da maioria do seu pblico; Savonarola podia estar popularizando a cincia. Thomas 
Murner, o franciscano que escreveu panfletos vivos e coloquiais contra Lutero, era um acadmico. Era doutor nos "dois direitos" (direito civil e direito cannico), 
autor de uma introduo  lgica escolstica, e escrevia em latim e alemo. Mesmo nas suas obras em alemo, Murner s vezes emprega termos tcnicos das escolas, 
como "Text und Gloss", em que "gloss"  o comentrio escrito entre: as linhas do texto. Abraham a Sancta Clara, cujos folhetos eram ainda mais vivos e coloquiais 
que os de Murner, era doutor em teologia, formado em retrica e predador na corte.
Os frades geralmente pregavam em estilo coloquial, mas isso no significa que estivessem apenas se expressando com naturalidade. A opo pelo estilo coloquial era 
uma opo literria consciente entre trs pg.96 estilos possveis, sendo os dois outros o estilo direto e o estilo rebuscado.12 Cada estilo tinha suas regras prprias. 
O pblico podia no conhec-las, mas os pregadores conheciam. Os frades baseavam-se em temas populares, mas constantemente alteravam-nos. Contavam estrias tradicionais, 
mas davam-lhes uma moral que no era necessariamente tradicional. Usavam melodias populares, mas escreviam novas letras para elas. Alguns elementos de sua atuao 
podem ser cultura popular, mas, como no caso dos provrbios de Villon, o conjunto no .
(III) Se os sermes dos frades no nos do acesso direto  cultura popular, talvez dem-no os folhetos e livretes populares. Mas tambm aqui h problemas. As canes 
e estrias impressas nesse formato barato podem ter expressado os valores de artesos e camponeses (principalmente artesos), mas h outras possibilidades. Tome-se, 
por exemplo, o chamado genre poissard, corrente na Frana durante o sculo XVII. Essas brochuras pretendem reproduzir a linguagem dos camponeses ou peixeiras de 
Les Halles, mas so imitaes literrias, provavelmente escritas por membros das classes altas para membros das classes altas, tendo to pouco a ver com as peixeiras 
reais quanto a pastoral da Renascena com pastores verdadeiros.13
O Eulenspiegel  um livreto que teve muitas edies na Alemanha e outros lugares, sendo muito mais conhecido do que qualquer outra brochura do genre poissard.  
uma coletnea de estrias com o mesmo heri, um trapaceiro, escritas com contos folclricos. O autor annimo declara no saber latim. Apesar disso, alguns captulos 
parecem ter sido extrados de uma coletnea em latim, que ainda no fora traduzida na poca da primeira edio de Eulenspiegel. Talvez os dois livros simplesmente 
se baseassem em tradies orais comuns, mas  possvel tambm que o livro tenha sido escrito por um mediador, algum que apenas simulasse ignorar o latim. Foi por 
vezes atribudo a Thomas Murner, ele tambm um frade.14
Quem estuda folhetos e livretes populares tem que ter sempre presente a questo da propaganda. Eles eram os "meios de comunicao de massa" daquele perodo, e era 
evidente para os lderes polticos e religiosos que tais meios deviam ser usados para influenciar o maior nmero possvel de pessoas. Durante a Guerra Camponesa 
alem, em 1525, foram impressas inmeras baladas em folhetos, tratando dos acontecimentos em curso. Geralmente so hostis aos camponeses e ressaltam que os rebeldes, 
ao tomarem armas, tinham quebrado sua palavra. Talvez elas simplesmente expressem a hostilidade da populao urbana contra os camponeses, mas algumas cidades colaboraram 
de fato com os camponeses em 1525, de modo que  possvel que essas pg.97 baladas tenham sido encomendadas pelas classes dirigentes, com finalidades propagandsticas. 
Em todo caso, o que as baladas no expressam so as atitudes dos rebeldes. Vale a pena ter em mente o comentrio de Andrew Fletcher de Saltoun, feito no final do 
sculo XVII: "Conheci um homem muito sbio, que acreditava que se um homem fosse autorizado a fazer todas as baladas, no precisaria se preocupar com quem faria 
as leis de uma nao". De modo semelhante, em 1769, um escritor do The London Magazine se indagava:

... (por que) nenhum governo neste pas, para o seu prprio bem, ou nenhum digno magistrado, para o bem pblico, se esforou em fazer com que circulassem entre o 
povo baladas com uma tendncia adequada. Tenho certeza que no se poderia empregar melhor o dinheiro e que nenhum ocupante de cargo pblico ou pensionista pode ser 
to til quanto poderia ser um grupo bem escolhido de cantores de baladas.

Em outras palavras, alguns contemporneos tinham conscincia do valor dos meios de comunicao de massa como instrumento de controle social.15
Esse exemplo alemo deveria nos tornar um pouco cautelosos em aceitar as recentes declaraes de estudiosos franceses, segundo as quais a Bibliothque Bleue  um 
espelho das atitudes dos camponeses franceses do Ancien Rgime. Essa "biblioteca" era uma coleo de livretos populares, publicada em Troyes e outros lugares, a 
partir dos incios do sculo XVII em diante, e distribuda por todo o pas por colporteurs ou mascates. Foram vendidos tantos exemplares que pelo menos alguns devem 
ter chegado s mos de camponeses, e se apenas 29% dos adultos homens sabiam ler no final do sculo XVII, na Frana, outros podiam ter ouvido a leitura dos livros 
em voz alta. Os livretes populares tambm eram comprados e lidos por artesos.
Contudo, seria imprudente concluir inadvertidamente que as atitudes conformistas em relao ao rei, nobres e clero, expressas nesses textos, eram as atitudes de 
artesos e camponeses na Frana moderna em seus primrdios. Em primeiro lugar, no podemos assumir que a Bibliothque Bleue representasse toda a cultura dos artesos 
e camponeses franceses. Ela coexistia com tradies orais e em algumas regies era muito menos importante do que tais tradies. Os livretos populares podem ter 
sido um elemento importante da cultura da Champagne do final do sculo XVIII, onde eram impressos e trs quartos dos adultos homens eram letrados, mas dificilmente 
teriam sido levados muito a srio em Morbiham no final do sculo XVII, onde o ndice de alfabetizao para os adultos homens estava abaixo de 10% e a lngua falada 
no era o francs, e sim o breto. pg.98
Em segundo lugar, no devemos esquecer o mediador. Os livros que os vendedores ambulantes faziam circular muitas vezes tinham sido escritos por padres, nobres, doutores 
e advogados, s vezes alguns sculos antes. Melusine, por exemplo, fora escrito no final do sculo XIV por Jean D'Arras, por ordem do duque de Berry. Algum revisou, 
resumiu ou traduziu o livro, e algum mais resolveu imprimi-lo. Um mascate escolheu-o para o seu estoque de vendas, e assim o livro chegou a uma determinada aldeia. 
Existe, pois, toda uma cadeia de intermedirios entre um texto especfico e os camponeses cujas atitudes supostamente vm nele expressas, e no podemos supor que 
os camponeses aceitassem passivamente as idias expressas nos textos, da mesma forma como os espectadores atuais no acreditam em tudo o que vem na televiso.16
(IV) Se as fontes impressas so enganadoras, certamente podemos confiar na tradio oral. A descoberta da cultura popular no final do sculo XVIII levou  coleta 
de muitas canes e estrias entre artesos, camponeses ou suas mulheres. No entanto, entre esses indivduos e o leitor moderno h, uma vez mais, toda uma cadeia 
de intermedirios. O editor, como vimos, pode ter tomado liberdades com os textos que coletou (acima, p. 45 ss.). Mesmo que no o fizesse, seus informantes podem 
ter feito. Percy imprimiu baladas que tinham-lhe sido enviadas por conhecidos seus, e os Grimm foram ajudados por amigos. Em todo caso, a presena do compilador, 
um forasteiro com um livrinho de notas na ocasio em que se canta ou conta uma estria, vai afetar o que ele quer registrar. Os cantores podem simplesmente se recusar 
a cantar. Karadzic anotou os problemas que teve para convencer mulheres srvias a cantarem, e, como a maioria dos compiladores eram homens, grande parte da cultura 
tradicional das mulheres se perdeu.
Mesmo o prprio cantor ou contador de estrias pode ser em certo sentido um mediador, visto que, nos incios da Europa moderna, o oral e o escrito, o campo e a cidade, 
a pequena e a grande tradio coexistiam e interagiam mutuamente. Exemplos do sculo XX mostram muito claramente essa interao. Um compilador americano teve grandes 
problemas e despesas para visitar uma regio distante no sudoeste, onde recolheria canes folclricas, "s para descobrir ... que grande parte do que reunira tinha 
sido aprendido em recentes programas de rdio do leste". Na lugoslvia, canes recolhidas da tradio oral nos anos 1930 s vezes tinham sido aprendidas em fontes 
impressas, inclusive a prpria coletnea de Karadzic. Assim, um folclorista ajuda a criar o folclore que outros viro coletar.17 pg.99
Esse tipo de situao s vezes pode ser documentado para o perodo anterior a 1800. O exemplo ingls clssico  o da sra. Brown, de Falkland, uma cantora que forneceu 
as verses de 33 baladas de Child, incluindo cinco desconhecidas por outras fontes. No entanto, ela no era camponesa, mas filha de um professor e conhecedora de 
Ossian e Percy.  provvel que esse seu conhecimento tenha afetado suas verses das baladas, e, de qualquer forma, seu interesse pelo sobrenatural, seu sentimentalismo 
e recusa do ertico refletem atitudes de classe mdia do final do sculo XVIII. Ela era uma mediadora. O que est documentado sobre a sra. Brown pode ser estendido 
a outros casos. Dos contos dos irmos Grimm, 21 remontam a um nico informante, uma mulher chamada "die Frau Viehmnnin". Ela nasceu em 1775, de ascendentes huguenotes 
refugiados aps a revogao do dito de Nantes. Conheceria ela a coletnea de Perrault? Algumas das semelhanas entre as colees de Perrault e dos Grimm resultaro 
dessa dependncia fortuita a uma informante especfica? Izaak Walton registrou certa vez que tinha ouvido uma ordenhadora a cantar "Venha viver comigo e ser meu 
amor". Qual era a fonte dessa tradio oral? Muito possivelmente um folheto impresso.18
(V) Se no se pode confiar nos registros de tradies orais feitos pelos primeiros folcloristas, talvez se possa confiar nos inquisidores. Os julgamentos e confisses 
de hereges e bruxas so, evidentemente, uma fonte importante sobre o comportamento popular. Nos registros dos processos, o historiador pode descobrir os modos de 
expresso prediletos dos acusados e quase ouvir suas vozes. Mas aqui tambm existem mediadores, pois as confisses muitas vezes no eram espontneas. As confisses 
das bruxas, por exemplo, so resultantes de uma situao em que o inquisidor, geralmente um frade, homem culto, est frente ao acusado, enquanto um escrivo anota 
o que est sendo dito. O historiador tem acesso ao registro do escrivo, muitas vezes em latim, sobre um dilogo onde o inquisidor, que podia ser novo na regio, 
provavelmente falava uma forma padronizada do vernculo, enquanto o acusado respondia em dialeto. As possibilidades de mal-entendidos eram considerveis. O inquisidor 
j passara vrias vezes antes por situao semelhante e sabia muitssimo bem o que estava tentando descobrir. O acusado no sabia o que estava acontecendo, e podia 
mesmo estar procurando freneticamente pistas e deixas sobre o que se queria. A situao era como que uma pardia das entrevistas que os antroplogos modernos fazem 
aos seus informantes em campo  os antroplogos ficam muito preocupados com a possibilidade de que as respostas recebidas sejam pouco mais do que eles prprios j 
sugeriram inconscientemente ao informante. Pg.100 Os interrogatrios de supostas bruxas eram um guia totalmente no confivel para as suas verdadeiras opinies, 
na medida em que o inquisidor tinha poder sobre a acusada, e a acusada sabia disso, e tambm porque podia-se usar a tortura para extrair as confisses. Como o famoso 
mdico italiano Girolamo Cardano apontou em meados do sculo XVI, as confisses de tipo padro no eram de confiana porque "essas coisas so ditas sob tortura, 
quando eles sabem que uma confisso desse tipo por termo  tortura". Em outras palavras, o acusado podia dizer aos inquisidores aquilo que eles esperavam ouvir, 
e o que eles esperavam ouvir era o que tinham lido nos tratados sobre bruxaria. Os tratados descreviam o que era confessado nos julgamentos, mas os julgamentos tambm 
seguiam o que era descrito pelos tratados.  muito difcil ao historiador escapar desse crculo vicioso e descobrir o que o acusado achava que tinha feito, se  
que achasse que fizera algo.19
(VI) Se os julgamentos por heresia e feitiaria so provas contaminadas, talvez os tumultos e rebelies nos dem um acesso mais direto  cultura popular. Ao invs 
de ouvir indivduos isolados e derrotados, podemos ver grandes grupos. As aes falam mais alto do que as palavras; os tumultos e rebelies podem ser vistos no 
s como expresses de "fria cega", mas tambm como expresses dramticas de atitudes e valores populares. Essa abordagem recentemente mostrou-se fecunda, mas, para 
empreg-la com segurana, o historiador precisa se lembrar do mediador.
Uma fonte para essa histria das rebelies  o interrogatrio dos participantes capturados, fonte que traz o mesmo tipo de distores intrnsecas dos interrogatrios 
de hereges e bruxas. Um outro tipo de fonte  a narrativa ou relato escrito na poca, geralmente em relatrios de funcionrios que tentavam sufocar as rebelies. 
Assim, sabemos das numerosas revoltas que ocorreram na Frana entre 1620 e 1648 quase exclusivamente atravs dos relatrios de funcionrios provinciais enviados 
ao chanceler Sguier, cujos documentos casualmente sobreviveram. Os valores desses funcionrios, to diversos dos dos rebeldes, podem ter afetado no s as avaliaes 
transmitidas, as quais podem  ser facilmente descontadas, mas tambm as descries apresentadas. Para os funcionrios, seria natural interpretar como "fria cega" 
um movimento visto pelos participantes como uma defesa planejada de direitos tradicionais especficos. Os funcionrios so mediadores entre ns e os rebeldes, e, 
como tais, no confiveis.20                               
O historiador nem sempre  forado a enxergar as revoltas exclusivamente pg. 101 atravs dos olhos oficiais. As reivindicaes dos rebeldes muitas vezes sobreviveram 
em forma manuscrita ou mesmo impressa e constituem evidentemente um tipo de fonte muito preciosa, desde que seja autntica. Quando os camponeses bretes se insurgiram 
em 1675, redigiram suas reivindicaes num Code Paysan. Tal documento, em caligrafia do sculo XVII ou XVIII, sobrevive, e se for autntico revela-nos muito sobre 
a mentalidade dos rebeldes. Ele contm a seguinte clusula: "  proibido, sob pena de passar pelas varas, dar abrigo  gabelle e seus filhos ... mas, pelo contrrio, 
ordena-se que todos disparem contra ela, como fariam com um cachorro louco". Em outras palavras, os bretes achavam que o apavorante imposto sobre o sal, a gabela, 
contra o qual tinham se revoltado, fosse uma pessoa. Ser mesmo? O texto pode ter sido alterado, e esses detalhes "folclorsticos" podem ter sido acrescentados para 
fazer com que o movimento parecesse absurdo. A existncia do mediador fica mais clara no caso de um texto com as reivindicaes dos camponeses na diocese de Speyer 
em 1502, pois ele no conseguiu resistir ao comentrio: "Oh, a pecaminosidade da mente camponesa! Que perdio ela sempre foi para o clero!".
As reivindicaes dos rebeldes durante a Guerra Camponesa alem, em 1525, sobrevivem numa forma mais confivel por terem sido impressas, na poca, para dar publicidade 
 causa. Mas continua um problema, porque no sabemos como os artigos foram redigidos. Os famosos Doze Artigos de Memmingen (uma cidadezinha na Subia, onde se reuniu 
um dos exrcitos camponeses) comeam com a exigncia de que cada parquia pudesse escolher seu prprio proco. Os artigos foram redigidos com o auxlio de homens 
de Memmingen, inclusive do escrivo da cidade, Sebastian Lotzer, e um pregador, Christoph Schappeler. Essa exigncia seria a que mais importava para os camponeses, 
ou para os homens que redigiram as reivindicaes em nome deles? De fato, esse direito de Pfarrerwahl vem mencionado em apenas 13% das listas de queixas locais dos 
camponeses subios e em apenas 4% das redigidas antes dos Doze Artigos.
Os lderes dos levantes camponeses muitas vezes eram nobres ou padres, e no camponeses, fosse porque haviam sido escolhidos para legitimar o movimento, fosse porque 
os camponeses no tinham experincia de liderana. Ocasionalmente  possvel que esses nobres ou clrigos no fossem sequer lideres voluntrios, tendo sido obrigados 
a assumir o comando; pelo menos foi o que vrias vezes declararam depois, talvez tentando escapar  responsabilidade. Lderes voluntrios ou no, esses homens tambm 
eram mediadores, e  difcil para o historiador pg. 102  descobrir o que a grande massa do movimento  como as bruxas  realmente achava que estava fazendo.
As listas de queixas locais de 1525 so como que uma espcie de pesquisa de opinio pblica distorcida, e a mesma objeo vale para os famosos cahiers franceses 
de 1789. Existem 40 mil desses documentos, discutidos em assemblias de vilas. A assemblia podia incluir todos os homens com 25 anos ou mais que pagavam impostos, 
mas pouco sabemos sobre a formulao de suas queixas. Num caso, um commerant local tirou uma lista do bolso e ela foi aceita com pequenas modificaes.23
ABORDAGENS INDIRETAS DA CULTURA POPULAR
Vimos que as objees feitas pelos historiadores tradicionais  histria da cultura popular tm certo peso, ao alegarem que essa empresa  impossvel devido  falta 
ou no-confiabilidade dos documentos, contaminados como esto por mal-entendidos ou finalidades propagandsticas para determinadas causas. No entanto, os historiadores 
nunca podem confiar totalmente nos seus documentos. A questo sobre os diversos tipos de documentos at aqui discutidos no  que eles no tenham valor, mas que 
so distorcidos, e a distoro pode ser admitida at um certo grau  na verdade, a tarefa tradicional do historiador  essa. Alguns documentos podem ser mais confiveis 
que outros, e algumas partes suas mais confiveis que outras, como sugere um reexame dos processos de feitiaria.
Alguns historiadores que estudam a feitiaria chegaram recentemente a novas concluses, e no com a descoberta de novos tipos de fonte, mas com uma nova forma de 
utilizao de velhas fontes. Um estudioso de processos de feitiaria na Itlia deu ateno particular aos casos em que o inquisidor parecia desconcertado com as 
respostas da acusada, pois  claro que nesses casos as respostas no se conformavam ao esteretipo inquisitorial. Em Friuli, no nordeste da Itlia, na dcada de 
1570, as acusadas declararam que no eram bruxas, mas inimigas das bruxas, com quem lutavam  noite com talos de funcho, enquanto as bruxas se armavam de talos de 
milho, "e se ns vencemos, aquele ano  abundante, e se perdemos, naquele ano h fome". Dois estudiosos de feitiaria inglesa utilizaram registros de processos para 
responder a questes que no interessavam imediatamente aos inquisidores e, portanto, tinham menor probabilidade de serem distorcidas: perguntas sobre o status social 
do acusado e do acusador, as relaes entre pg. 103 eles e as situaes a partir das quais surgiram as acusaes. Se isso no nos faz avanar muito na compreenso 
da mentalidade dos prprios bruxos, por outro lado lana de fato uma grande luz sobre os seus vizinhos.24
Por certo, o ponto essencial  aceitar o fato de que com freqncia no podemos alcanar diretamente os artesos e camponeses dos incios da Europa moderna, mas 
podemos chegar a eles atravs de pregadores, impressores, viajantes, funcionrios. Esses homens eram intermedirios entre a cultura erudita e a cultura popular e, 
numa situao de coexistncia entre a grande e a pequena tradies, eram um fato fundamental da vida cultural, enviados bem ou mal recebidos do mundo exterior para 
a pequena comunidade. Visto que  impossvel uma abordagem direta, uma abordagem indireta da cultura popular atravs desses mediadores  a menos capaz de nos pr 
na pista errada. De fato, existem vrias abordagens indiretas.
Uma abordagem indireta  estudar textos quando o que se quer recuperar  a apresentao. Os riscos dessa abordagem j foram discutidos, mas h um outro aspecto a 
se levantar, isto , que alguns textos esto muito mais prximos das apresentaes do que outros. Entre os documentos que sobreviveram, existem manuscritos em que 
alguns menestris registraram o seu repertrio. Um famoso exemplo ingls  o manuscrito Ashmole n 48, associado ao menestrel Richard Sheale, do sculo XVI. Conhecemos 
alguns pregadores populares apenas atravs de edies latinas pstumas de suas obras, mas tambm conhecemos outros atravs de registros feitos no momento. Alguns 
dos sermes de so Bernardino de Siena foram impressos a partir de um manuscrito do sculo XV, copiados por um homem que ia aos sermes com tbuas de cera, a fim 
de transcrever taquigraficamente cada palavra dita. Os sermes de Calvino tambm foram taquigrafados  medida que ele os apresentava, para que pudessem ser impressos 
imediatamente com preciso.25
Uma segunda abordagem da cultura popular pode ser descrita como socialmente indireta. Consiste em estudar as atitudes de artesos e camponeses atravs dos testemunhos 
do clero, nobreza e burguesia. Os riscos desse procedimento j foram ressaltados, mas no so intransponveis. Por exemplo, as classes altas participavam autenticamente 
da cultura popular, em especial na primeira metade do perodo, de forma que no eram estranhas de todo a ela. As baladas e carnavais, e at mesmo os tumultos e rebelies, 
podiam ser compreendidos por elas a partir de dentro. Particularmente precioso  o testemunho de homens que nasceram artesos ou camponeses e depois ascenderam socialmente. 
pg 104 Alguns escreveram suas autobiografias, como Benvenuto Cellini ou Giulio Cesare Croce, John Bunyan ou Samuel Bamford, e esses textos so os que mais aproximam 
o historiador quele mundo desaparecido.26
Trs abordagens mais indiretas precisam ser discutidas com maiores detalhes  o mtodo iconogrfico, o mtodo regressivo e o mtodo comparativo.
A iconografia foi definida por um dos seus maiores praticantes, o falecido Erwin Panofsky, como "aquele ramo da histria da arte que se interessa pelo tema ou significado 
das obras de arte, em oposio  sua forma".27 O mtodo inclui tarefas prosaicas, como a identificao dos santos pelos seus atributos, e um nvel de anlise mais 
profundo, que Panofsky chamou de "iconologia", que envolve a diagnose das atitudes e valores cujos sintomas so as obras de arte. Grosso modo, pode-se dizer que 
a iconografia se refere ao que os contemporneos sabiam sobre obras de arte e a iconologia ao que eles no sabiam sobre si mesmos  ou, pelo menos, no sabiam que 
sabiam. No h por que no estudarmos dessa forma o imaginrio popular, tal como se estudam as obras de arte produzidas para prncipes e nobres, quer olhemos as 
figuras de cermica de Staffordshire, as peas de madeira entalhada e colorida  mo feitas em Epinal ou as pinturas camponesas de Dalarna.
Visto que os artesos e camponeses de que tratamos freqentemente eram analfabetos e tinham mais facilidade em usar as mos do que as palavras, a abordagem iconogrfica 
de suas atitudes e valores deve ser fecunda. Os objetos artesanais por eles produzidos constituem nosso contato mais imediato com os mortos, cujo mundo estamos tentando 
reconstruir e interpretar, e em tal medida imediato que at pode parecer estranho consider-lo um tipo de abordagem indireta. O que justifica isso  simplesmente 
o fato de que a histria  escrita; assim, quando um historiador da cultura interpreta um objeto artesanal, ele traduz em palavras o que est na tela, madeira ou 
pedra para as palavras.
Esse tipo de traduo sempre  um tanto presunoso. Ele se mostra particularmente difcil no caso da arte popular pela mesma razo que o faz to necessrio, isto 
, a falta de evidncias literrias confiveis sobre a viso de mundo dos iletrados. No admira muito que pouco se tenha feito nesse campo. Os objetos artesanais 
foram reunidos em museus de arte folclrica, a distribuio deles foi cuidadosamente mapeada e muitos problemas iconogrficos, no sentido estrito do termo, foram 
resolvidos, de modo que  possvel reconhecer a caridade de so Martinho, o "moinho dos jovens" ou o "mundo virado de cabea para baixo" pg 105. Mas o que o "mundo 
de ponta-cabea" significava para o povo comum? As associaes ligadas a ele eram apavorantes ou engraadas? A freqncia com que os soldados aparecem na arte popular 
do sculo XVIII significa que o povo comum aprovava as guerras? Mal se comeou a tentar responder a perguntas desse tipo; a abordagem iconolgica da cultura popular 
simplesmente permanece fora de alcance.
A iconologia da rebelio pode nos conduzir s intenes da plebe de maneira mais direta que as confisses dos lderes. Os camponeses alemes do incio do sculo 
XVI muitas vezes marcharam para a revolta seguindo um estandarte com a imagem de um sapato, o Bundschuch: o que essa imagem significava exatamente para eles? Na 
peregrinao da Graa inglesa, destacava-se o estandarte das Cinco Chagas; na revolta normanda de 1639, o estandarte dos rebeldes representava so Joo Batista. 
Os participantes estavam acostumados a seguir esse tipo de estandarte nas procisses religiosas. As imagens religiosas talvez legitimassem a revolta aos seus olhos, 
transformando-a numa peregrinao ou numa cruzada. A imagem de so Joo Batista, que andava descalo, talvez fosse uma figura com que os pobres podiam se identificar 
facilmente...
Toda a imensa rea de cultura material  um objeto em potencial para a anlise iconolgica. As roupas, por exemplo, formam um sistema simblico. Numa determinada 
comunidade onde se partilham significados, existem certas regras que regem o que pode ser vestido, por quem, em quais ocasies, de tal forma que as roupas usadas 
por um indivduo transmitem vrias mensagens aos membros da comunidade. Ao nvel iconogrfico, isso  bastante evidente; um rpido olhar para uma jovem camponesa 
revelaria ao iniciado a aldeia de onde ela vinha, o grau de prosperidade de sua famlia, se era casada ou no. Um historiador tambm conseguiria estudar a iconologia 
das roupas? Grandes variaes regionais nos trajes dizem ao observador que os usurios se identificam muito com a sua regio; uma aguda distino entre dias comuns, 
de trabalho, e dias festivos pode vir expressa numa aguda distino entre roupas de trabalho e as "melhores roupas de domingo". Uma abordagem iconolgica das casas 
tambm  possvel, pois uma casa no  apenas um instrumento de moradia, mas tambm um centro de rituais. A lareira e a soleira eram locais de importncia simblica 
 da enterrarem frascos mgicos sob elas em casas de East Anglia, nos sculos XVI e XVII. As casas refletem e modelam necessariamente a vida familiar e os hbitos 
de trabalho ou lazer; tambm elas podem ser vistas como sistemas de signos. A organizao do espao e a disposio das principais peas de moblia transmitem, num 
nvel, mensagens sobre pg. 106  os homens e mulheres que ali moram e, em outro, sobre a cultura em que vivem.28  claro que temos de lembrar que no podemos entrar 
numa casa do sculo XVIII, e que os interiores que vemos em museus de arte folclrica so reconstrues  isto , interpretaes.
Se de algum modo  possvel estudar a cultura material dos incios do perodo moderno como um sistema de signos, uma outra abordagem indireta deve ser utilizada, 
agora cronologicamente indireta, o chamado "mtodo regressivo". Essa expresso foi cunhada pelo grande historiador francs Marc Bloch, quando estudava a histria 
rural. Ele tentou ler a histria do campesinato francs a partir dos campos cultivados, e descobriu que havia indcios relativamente bons para o sculo XVIII (quando, 
por exemplo, eram comuns os mapas dos campos), mas fragmentrios para os sculos anteriores. Assim Bloch props ler a histria retrospectivamente.

No  inevitvel que, em geral, os fatos do passado mais remoto sejam tambm os mais obscuros? Como se pode escapar  necessidade de se trabalhar do mais para o 
menos conhecido? 29

O historiador da cultura popular tradicional est numa posio parecida. Gravuras, folhetos e livretos populares do sculo XVIII so muito mais numerosos do que 
os anteriores, seja porque se imprimiram mais ou porque sobreviveu uma parcela maior. Uma alta porcentagem dos objetos artesanais conservados em museus de arte popular 
so do sculo XVIII em diante.30 Foi somente no final do sculo XVIII que as baladas e estrias passaram a ser, como vimos, sistematicamente recolhidas da tradio 
oral e os costumes e festejos populares sistematicamente descritos. H, portanto, boas razes para se escrever a histria da cultura popular para trs utilizando 
o final do sculo XVIII como base de avaliao das evidncias mais fragmentrias dos sculos XVII e XVI.
Em certas reas onde os indcios so particularmente escassos, o historiador at pode ser obrigado a tomar como base um perodo posterior e trabalhar retrospectivamente 
a partir dele. Nem  preciso dizer que ele precisa tomar muito cuidado. Suponhamos, por exemplo, que queremos reconstruir a cultura dos servos na Europa central 
e oriental dos sculos XVII e XVIII. Certamente seria um erro negligenciar os contos populares coletados em Mecklenburgo, por exemplo, no incio do sculo XX: so 
estrias coletadas de ancies e ancis cujos avs provavelmente estavam vivos no final do sculo XVIII, tradies orais que revelam alguma coisa sobre as atitudes 
dos servos em relao aos seus senhores.31 Pg.107
 Da mesma forma, se quisermos estudar as canes populares dos incios da Europa moderna, o mtodo regressivo  indispensvel, e deve-se tomar  como ponto de partida 
os anos em torno de 1900. Foi s ai que comeou o estudo srio da msica folclrica, tentando-se registr-la tal como era catada, sem harmoniz-la. Fopi em 1903 
que Cecil Sharp gravou sua primeira cano popular.  As sementes do amor, no jardim de uma parquia em Somerset, e, um ano depois, no outro extremo da Europa, 
na Transilvnia, Bla Bartk comeou suas coletas. Foi s nessa poca que os recursos de gravao comearam a se tornar acessveis. Sharp no gostava do fongrafo 
em cilindro por achar que tirava a espontaniedade dos cantores, mas Bartk gravou um bom nmero de msicas camponesas em cilindros de cera, o que permitiu comparar 
execues individuais.  
Ningum que se interesse pelas tcnicas dos poetas orais ou cantores de estrias pode se permitir ignorar os registros feitos em campo durante os sculos XIX e XX. 
As byliny russas estavam transcritas desde antes de 1800, mas foi s nos meados do sculo XIX que a pessoa que as registrava deu alguma ateno s variaes de execuo. 
Ainda mais teis, desse ponto de vista, so as gravaes em tape dos cantores de estrias iugoslavos que o estudioso americano Milman Parry fez nos anos 1930; elas 
permitem comparar as verses de dois cantores da mesma cano, e a mesma cano cantada pelo mesmo cantor em ocasies diferentes. Alis, a inteno de Parry era 
testar hipteses sobre as tcnicas poticas de Homero, ambio esta que faz com que nossa tentativa de remontar ao sculo XVI parea extremamente tmida! Mais recentemente, 
um outro estudioso americano, tambm equipado com um gravador, estudou a arte verbal de pregadores negros em algumas partes dos EUA. Mais uma vez, a informao que 
temos sobre a arte divinatria e a medicina popular na Frana, Noruega ou Iugoslvia  incomparavelmente mais detalhada para o sculo XX do que para perodos anteriores. 
Os historiadores cujas fontes consistem de textos fragmentrios tm muito a aprender com os folcloristas cujas fontes so pessoas vivas, que podem ser observadas 
em ao e at interrogadas.33
Para evitar mal-entendidos, gostaria de dizer logo o que no  o mtodo regressivo. Ele no consiste em pegar descries de situaes relativamente recentes e supor 
despreocupadamente que elas se aplicam da mesma forma a perodos anteriores. O que defendo  antes um uso mais indireto do material moderno, para criticar ou interpretar 
as fontes documentais. Ele  particularmente til para sugerir ligaes entre elementos que podem ser documentados para o perodo em estudo pg108 , ou para dar 
sentido a descries que so to alusivas ou elpticas que, por si ss, no fazem sentido.34
O mtodo regressivo, tal como  aqui defendido,  muitssimo menos ambicioso que a abordagem de Wilhelm Mannhardt, sir James Frazer e outros eruditos do sculo XIX 
que adotaram os costumes dos camponeses de sua prpria poca, como o ritual do ltimo feixe ou as lutas simuladas dos atores de pantomimas, como base para a reconstruo 
daquilo que eles gostavam de considerar como "a religio primitiva dos arianos". Eles estavam preocupados com o estudo das origens, em detrimento do estudo do significado 
desses rituais para as geraes posteriores, e estavam dispostos a pular milhares de anos, negligenciando as transformaes sociais e culturais do perodo que decorreu 
entre Tcito e eles prprios. Aceitavam com muita facilidade o mito de uma cultura popular imutvel, criado pelo homem culto da cidade que v os camponeses mais 
como parte da natureza do que como parte da cultura, em outras palavras, mais como animais do que como homens. Marc Bloch no cometeu esse erro. Sua inteno no 
era a de pular milnios, mas refazer o seu caminho, passo a passo, por um ou dois sculos. Sua idia no era que a transformao estivesse ausente do campo francs, 
mas sim que era lenta.
Em comunidades aldes onde a maioria das famlias ali permanecia ao longo das geraes, vivendo nas mesmas casas dos pais e avs, lavrando o mesmo solo,  razovel 
supor uma grande continuidade cultural. Nesse tipo de comunidade, as tradies orais provavelmente eram estveis e, assim, constituem um guia mais confivel para 
o passado do que os historiadores modernos se dispem a admitir. Existem ainda hoje homens que moram nas Terras Altas ocidentais, ocupando a mesma terra que ocupavam 
seus antepassados no sculo XVII e possuindo tradies familiares que remontam a essa mesma poca. Em outras partes da Inglaterra contempornea, como mostraram os 
Opie, as crianas so guardis fiis da tradio oral. 

Em sua comunidade fechada, sua cultura e linguagem bsica nem parecem se alterar de gerao para gerao. Os meninos ... fazem charadas que eram feitas quando Henrique 
VIII era garoto. Meninas ... repreendem outra do seu grupo que pede de volta um presente com uma parelha de versos usada no tempo de Shakespeare.35

 claro que as tradies orais realmente mudam ao serem transmitidas. Incidentes ocorridos com sculos de diferena podem se combinar na mesma verso, ou questes 
modernas podem ser projetadas no passado. Contudo, o historiador que tem conscincia de estar empregando pg 109 uma abordagem indireta lembrar de dar os descontos. 
Ele confiar no mtodo regressivo mais para as estruturas do que para os detalhes, mais para a interpretao do que para a definio das atitudes. Seu problema bsico 
continua a ser o de saber o quanto atribuir  transformao num caso qualquer, o problema de fazer a ligao entre as duas abordagens.
A histria das peas de pantomimas inglesas pode ilustrar essa dificuldade. Sobrevivem mais de seiscentos textos, mas quase todos so (como os textos dos maggi toscanos 
ou as "peas de estrelas" suecas) do sculo XIX em diante. Vrios deles tm como heri so Jorge. Em Norfolk, em 1473, sir John Paston referiu-se a um homem que 
mantivera consigo "durante trs anos para encenar so Jorge". O problema  fazer com que as pontas se encontrem e reconstruir a pea do sculo XV a partir de verses 
registradas cerca de quatrocentos anos depois. Podemos comear por eliminao, retirando personagens como Oliver Cromwell, rei Guilherme (seja Guilherme III ou Guilherme 
IV) e o almirante Vernon, que aparecem nas verses do sculo XIX. A crtica dos textos permitiu aos estudiosos recuperar alguns nomes e frases que tinham sofrido 
corruptelas ao longo da transmisso oral, reconhecendo em "Turkey Snipe' ("Narceja da Turquia") o "Turkish Knight" ("Cavaleiro Turco"). Temos que dar um certo desconto 
pelo fato de que algumas verses do sculo XIX foram registradas sob forma expurgada por procos locais, os mediadores onipresentes. Como um restaurador de quadros 
que retira camada por camada de pinturas sobrepostas, o historiador se depara com a estrutura fundamental da ao: a seqncia de combates, a morte do heri e sua 
ressurreio.36
Nesse ltimo exemplo, o mtodo regressivo pode ser complementado com uma ltima abordagem indireta: a comparao. As formas antigas e o possvel significado de algumas 
pantomimas inglesas se esclareceram com uma comparao com as peas de so Jorge encenadas na Trcia, no comeo do sculo XX. As peas gregas ajudaram a imaginar 
o que eram as peas inglesas antes dos expurgos. Se estamos tentando determinar at onde remonta a figura do mdico cmico, ser til saber que aparece um personagem 
parecido nas peas carnavalescas alems dos sculos XV e XVI.37
Talvez seja proveitoso seguir Marc Bloch um pouco alm e distinguir entre duas variedades do mtodo comparativo.
A primeira  a comparao entre vizinhos. A balada 4 de Child, Lady Isabel and the Elf-Knigh,  curta e crptica. As verses coletadas do outro lado do mar do Norte, 
nos Pases Baixos, onde a balada se chama Heer Halewijn, so mais completas e numerosas, e assim servem pg. 110 para interpretar a variante inglesa. O historiador 
dos rituais tem uma necessidade ainda maior do mtodo comparativo do que o historiador de baladas. Seria difcil reconstruir ou interpretar os carnavais romanos 
do sculo XVI sem se fazer alguma comparao com Florena ou Veneza. Quanto mais fragmentrias as provas sobreviventes de uma regio, tanto mais til  a abordagem 
comparativa. Ela tem de ser empregada com prudncia  a pessoa no se pode permitir ignorar as variaes regionais, como tampouco a transformao ao longo do tempo 
 mas, utilizada como abordagem conscientemente indireta, tem suas utilidades.38
Mais controversa  a segunda variedade dessa abordagem, a saber, as comparaes entre duas sociedades relativamente remotas no tempo ou no espao. O historiador 
dos incios da Europa moderna ter algo a aprender com os antroplogos sociais que estudaram os habitantes das ilhas trobriandesas, os nuers ou a Siclia ou a Grcia 
contemporneas?  desnecessrio dizer que ele no pode simplesmente adotar suas concluses. No entanto, os antroplogos experimentaram em primeira mo aquilo que 
os historiadores tentam imaginar com tanta dificuldade, ou seja, a qualidade de vida em sociedades pr-industriais, e voltaram para nos contar a respeito em nossa 
prpria lngua. Os antroplogos muitas vezes esto mais  vontade com os conceitos e tm maior clareza sobre os seus mtodos do que os seus colegas historiadores, 
e isso faz com que valha a pena seguir seu exemplo, em especial num campo como o da histria da cultura popular, que no foi suficientemente cultivado pelos historiadores 
para que se tenha logrado alcanar qualquer consenso a respeito de mtodos.
Um exemplo bvio do que um historiador de crenas populares pode aprender com os antroplogos sociais que trabalham em outro continente encontra-se na pesquisa recente 
sobre feitiaria. Certos estudiosos de feitiaria africana consultaram curandeiros e at se tornaram seus aprendizes, de modo que chegaram a entender a feitiaria 
por dentro. Os historiadores no podem imitar esses mtodos, mas o exemplo dos antroplogos ajudou a libert-los da presso, exercida pelos documentos, no sentido 
de encarar as bruxas pelos olhos dos seus juzes.39
Para os historiadores interessados nas atitudes e valores dos camponeses que raramente deixaram registros escritos, o estudo dos rituais pblicos  evidentemente 
importante e tambm nesse campo os antroplogos h muito tempo movem-se  vontade. Um estudioso dos carnavais europeus tem algo a aprender, como sugerir um captulo 
posterior, com os trabalhos recentes sobre os "ritos de inverso" na ndia e pg. 111 na frica. Mais uma vez, eu no teria me atrevido a sugerir que os historiadores 
algum dia podero analisar as casas de camponeses europeus como sistemas de signos se o antroplogo Pierre Bourdieu no tivesse feito uma anlise desse tipo a respeito 
da casa berbere da Arglia moderna, descrevendo o contraste entre o espao masculino e o espao feminino, entre "a parte superior, nobre e iluminada da casa", local 
do fogo, e "a parte inferior, escura e noturna da casa, local de objetos que so midos, verdes ou crus".40
Os antroplogos que se tornaram etno-historiadores tambm deram dois exemplos importantes quanto ao uso cuidadoso e consciente do mtodo regressivo. Para avaliar 
a influncia da Espanha na cultura da Amrica Latina, George Foster tentou reconstruir a cultura do campesinato espanhol do sculo XVI e para tanto ele trabalhou 
regressivamente a partir do sculo XX, fazendo seu trabalho de campo na Espanha e recorrendo  pesquisa de folcloristas. Georges Balandier escreveu uma histria 
do reino do Congo nos sculos XVI e XVII. As fontes documentais para esse perodo so obra de funcionrios e missionrios brancos, e expressam, o que  bastante 
natural, os seus pontos de vista. Para complementar essas fontes, Balandier recorreu a tradies orais coletadas nos sculos XIX e XX. As tradies orais podem no 
fornecer uma narrativa confivel sobre os acontecimentos, mas so evidncias inestimveis sobre as reaes a esses acontecimentos, para v-los com a viso dos vencidos". 
Fica bastante evidente a analogia entre os problemas de Balandier e os de um historiador da cultura popular europia. 41 
O mtodo comparativo, tal como o regressivo, supe especulaes. Se ele parecer especulativo demais, o leitor deve se lembrar que o mtodo no  para ser utilizado 
sozinho, mas junto com todos os outros mtodos, e principalmente para dar sentido a fragmentos de provas sobreviventes, e no como substituto delas. Herder uma vez 
chamou as canes folclricas de "o arquivo do povo" (das Archiv des Volkes).  impossvel ler em tal arquivo sem esse tipo de tcnica. Visto que a cultura popular 
dos incios da Europa moderna  to esquiva, ela tem de ser abordada por rodeios, recuperada por meios indiretos e interpretada com uma srie de analogias. As dificuldades 
sero vivamente ilustradas no prximo captulo, dedicado a cantores e contadores de estrias, atores, entalhadores e pintores que transmitiram a cultura popular 
desse nosso perodo. Alguns deles foram celebrados em sua prpria poca, mas todos so agora figuras obscuras. Pg. 112
